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Monday, March 28, 2005

* 01/I - O CICLONE

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Ciclone
 
Imagem: Internet




 
DOROTHY Gale vivia feliz com os tios, Henry e Ema, no coração do território do Kansas, nos Estados Unidos. A casa, feita de madeira, tinha apenas um cômodo grande. Dentro, um velho fogão a carvão, um guarda-comida, uma mesa, quatro tamboretes, a cama de casal e um estrado para Dorothy. Não havia uma flor, um ornato. O único livro era a velha Bíblia. Numa das paredes, o retrato de Tia Ema ao lado do marido, tirado no dia do casamento. Acinzentado pela ação do tempo, mas ainda dava a ideia de como eram jovens e belos. Com dezoito anos, ela prendia entre os dedos um pequeno buquê de flores campestres.
Tia Ema envelhecera em pouco tempo. Com o sol e o vento castigando seu rosto perdeu o rubor dos lábios e das faces, a pele acinzentou-se. Os cabelos, que eram arruivados, ficaram brancos. Sempre enrolados sobre a nuca, presos por um antigo pente de tartaruga. Quando Dorothy foi morar no Kansas, levou muito tempo para se acostumar com a jovialidade da sobrinha, mas desde o início admirava a menina por ser tão alegre em lugar tão triste, tão cinza.
Como também mostra a fotografia, tio Henry era bem apessoado nos seus vinte anos, o rosto liso e, pegado ao nariz, apenas um bigodinho ralo. Ocorridos 50 anos, transformou-se num senhor pesado, sobrancelhudo e barbudo que passava o dia fumando um cigarrinho de palha, continuamente preso entre os dentes. Vestido com um surrado macacão de lona, que só tirava para lavar, assim como as botas de couro, sujas de tanto pelejar no estábulo, tinha orgulho de morar no Kansas.
Dorothy tinha doze anos. Mocinha de pele clara e olhos de um azul polar encantador. Os cabelos, amarelos como cachos de trigo, feitos em duas longas tranças eram a paixão da tia Ema. Forte e cheia, ela vivia apertada num vestido puído de chita. Sua única diversão era brincar com Totó, um cãozinho bastante alegre, sempre ao seu lado.
Na casa, não havia sótão nem porão. Só um enorme buraco cavado no chão, onde a família se abrigava durante os furacões. Um buraco anticiclones, como dizia tio Henry. Para se esconder ali, desciam pelo alçapão num canto do cômodo.
Em torno da morada, destacava a extensa campina acinzentada, coberta por relva com as extremidades de suas hastes torradas pelo sol. Nada de árvores, nada de verde, tudo muito árido. Nenhuma vila, nem mesmo uma casa vizinha. Tudo era cinzento, inclusive a casa de tio Henry. Pintada há tempos de branco, tornou-se cinzenta e melancólica, como tudo em volta.
Certo dia, o céu amanheceu carregado, mais cinza. O vento arrastava ondas de capim para todos os lados, um barulho ensurdecedor. Tio Henry, sentado na soleira da porta estava a horas examinando o mau tempo. Em pé, ao seu lado, Dorothy com o Totó nos braços, também olhava o céu, enquanto tia Ema, lá na pia, lavava louças. De repente, tio Henry levanta-se e observa:
- Mau sinal, gente, vejam a cólera dos deuses! Como essas coisas da natureza não têm hora para acontece, acho que vem aí um ciclone – e virando-se para a mulher - Ema, tome conta da garota que vou cuidar dos bichos.
O velho corre para o curral, já berrando pelo nome os animais. Tia Ema, assustada com a violência do vento, larga o trabalho, e desce para o esconderijo, gritando:
- Dorothy!... Dorothy!... Depressa, menina, corra para cá.
Totó escapa dos braços de Dorothy e se esconde debaixo da cama. A menina tenta agarrá-lo, suplicando:
- Totó, venha cá. Depressa, seu maluquinho!
Quando Dorothy finalmente segura o cachorro e seguia em direção ao abrigo, uma rajada de vento abala tudo com violência, mal dando para aguentar. A casa desprende-se do chão, rodopia duas vezes no ar e, como um balão, começa a voar.
- Trem mais esquisito! – murmura a menina, quase morrendo de medo.
Dorothy sem saber como agir, acha melhor ficar quietinha num canto da casa. Totó latia feito doido correndo sem parar de um lado para o outro. Passava tão perto da portinhola aberta para o sótão que, de repente, foi tragado pelo vento para fora da casa.
A menina entra em desespero. Chora e grita pelo cão, imaginando que pouco ou nada poderia fazer pelo amigo. Mas, logo se anima ao avistar as orelhas de Totó aparecendo e desaparecendo na boca do alçapão - a forte pressão do vento fazia o corpo do animal flutuar. Imediatamente, limpa as lágrimas com a costa das mãos, engatinha-se até ele, pega firme em suas orelhas e puxa-o para dentro de sua casa flutuante. Feliz, aperta o cão no colo e pula para a cama, pensando ser um lugar mais seguro para viajarem em condições misteriosas, sozinhos mundo afora.
- Que susto, hein?
Agarradinha a Totó acaba adormecendo, apesar do balanço da casa e do barulho do vento.
 
 
 
 

 

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